
Poderia ser apenas a projeção pessimista de algum estudioso sobre o futebol feminino no Brasil. Mas as palavras que intitulam essa matéria foram proferidas por quem integrou a seleção brasileira por oito anos, sete deles como capitã. A zagueira Aline Pellegrino usou a sentença durante a mesa redonda “Futebol Feminino no Brasil e no mundo”, na tarde dessa quarta-feira (03), do III Congresso Internacional de Futebol realizado no Hotel Plaza São Rafael. Compondo a mesa, a também ex-jogadora de seleção, a goleira Maravilha e a professora da UFRGS Silvana Vilodre Goellner.
“Só o talento não resiste”, afirma Aline, que descreveu a sua trajetória no futebol e os ciclos olímpicos da seleção brasileira, de 2004 a 2011. Com diversos títulos dentro de campo, ela destaca a conquista do Pan-americano de 2007 como um grande marco para a modalidade, quando 70 mil torcedores vibraram com a vitória por 5 X 0 em cima dos Estados Unidos. Antes de chegar a esse título, as meninas já tinham realizados grandes feitos como a prata nos Jogos Olímpicos de 2004 e o vice na Copa do Mundo de 2007.
Realizações essas obtidas muito mais no talento de cada jogadora do que propriamente pelos incentivos de organizações. Para ela, uma mudança substancial foi quando, em 2000, o treinador René Simões assumiu a equipe e imprimiu um caráter profissional. Foi quando a seleção feminina pode então treinar também na Granja Comary. Depois do ápice, entretanto, Aline acredita que o apoio a seleção só vem decaindo. E, desse modo, assim o desempenho. Pois, sem incentivo, campeonatos, um tratamento profissional, com equipes técnicas competentes, apenas o talento das jogadoras não irá superar os investimentos que os outros países tem feito e provocado o desenvolvimento do futebol feminino. Dessa forma, prevê a ex-zagueira, o amadorismo continuará a prevalecer.
Amadorismo vivido também por Marlisa Wahlbrink, a goleira Maravilha, como ficou conhecida. Integrante da primeira geração da seleção brasileira de futebol feminino, a ex-atleta já chegou até a trabalhar de empregada doméstica em Porto Alegre e treinar à noite em busca do objetivo. Maravilha foi convocada pela primeira vez em 1995 e só deixou a seleção em 2008. Foram 12 anos representando a seleção, integrando a equipe que conquistou o quarto lugar nos Jogos Olímpicos de 1996, quando a seleção não contava com o apoio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e foi patrocinada pela empresa Sport Promotion. Apenas em 1999 a CBF assumiu a seleção. No mesmo ano veio o terceiro lugar do Mundial.
O primeiro clube da goleira foi o Cruzeiro de Porto Alegre, passou pela equipe de Saad de São Paulo. Em todos esses anos de atuação, em apenas um teve carteira assinada, no São Paulo Futebol Clube.
Aposentada dos gramados, hoje, tanto Aline quanto Maravilha seguem trabalhando pelo desenvolvimento da modalidade no país.
A história de vida das ex-atletas fora de campo comove pela batalha. Mas o que mais impressiona é a narrativa dentro de campo, onde a superação para as conquistas sempre foi necessária, movidas muito mais dos seus próprios talentos e paixão do que pelo profissionalismo da atividade. Que, apesar de alguns momentos de crescimento, tem decaído no último olímpico que termina nos Jogos Rio 2016.
As perspectivas não são nada animadoras. Quem afirma é quem viveu 25 anos envolvida com a modalidade e quem viveu 16 como atleta profissional. De quem acompanha e ainda conhece muitas das que integram a atual seleção. Mudanças de 1995 a 2016? Existiram, mas não persistiram. FaltaÂÂÂ incentivo. Pode-se ter a Martha como melhor jogadora do mundo. Mas, como disse a capitã: “Só talento não resiste”.
Texto e foto: Nathália Ely/Travinha Esportes
0 comentários:
Enviar um comentário